- Tenho de ir.
- Já?
-Sim, até acho que já é tarde.
-Podias ficar mais um bocado, ainda tens tempo…
-Mais?!
-Sim, o que é que tem de mal?
-Tem de mal que já é tarde, e eu não quero que seja tarde demais. Tem de mal que me trouxeste poucas coisas boas, para além das supérfluas ilusões de uma vida melhor. Tem de mal que estou farto das tuas conversas sem nexo, das tuas tão seguras opiniões que não te levam a lado nenhum, das tuas acusações só porque alguém ousou ser diferente. Deste-me tão pouco… Depois de tantos anos juntos, continuas a desconfiar a cada passo que dou, sempre com medo que me perca, sempre com medo que a minha luz se apague, que fiques às escuras, e que não encontres mais ninguém que possa iluminar a merda de caminho dourado que julgas poder percorrer. Tu não me bastas.
-Pára com isso. Eu sei que voltas, voltas sempre…
-Não sei se volto. Podes vender os meus livros e partir os meus cd’s como tanta vez quiseste fazer, com o teu cego e desordeiro ciúme, que não suporto mais. Tenho a certeza que vais permanecer sentada nesse sofá, sem que alguma coisa te faça erguer para a vida, te faça acordar e lutar pelo que quer que seja. Nunca lutaste por nada, nem por ti própria, como queria eu que lutasses por mim? Estás acomodada no confortável e falso sítio em que achas que tudo te cai nas mãos, e não atreves sequer a pensar se há mais alguma coisa para além disso. Mas onde é que viveste até agora? Tens a certeza que foste tu que estiveste nesta casa, comigo, durante este tempo todo? Onde é que ficou o teu coração? Pensei que tinhas um, esforcei-me para acreditar nisso a cada dia destes últimos anos em que caí no erro de te ter entranhada na minha vida. Agora acabou, juro.
-Já terminaste?
-Já.
-Então dá-me um cigarro que essa conversa toda deixou-me entediada.
Desta vez não voltas, pois não?
ResponderEliminar***
oh fuck, que conversa.
ResponderEliminar??
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