10.4.10

As pessoas correm desenfreadamente. Algumas sobem escadas apressadas, outras descem-nas, lentamente. Muitas pessoas correm, outras tantas andam depressa. Poucas caminham normalmente. Não reparam em desconhecidos sem sentido. Alguns cansados de amar, outros gastos pela vida, com fendas de tristeza na cara, outros transparentes, poucos deles solúveis.

As pessoas não são atentas, não vêm para lá dos corpos, nem das lentes escuras e grossas dos óculos de sol comprados em lojas baratas. As pessoas cobrem-se com grandes cachecóis, “diz que agora estão na moda”, cobrem-se até ao último centímetro de pele. As pessoas, que correm desalmadas pelas ruas, no metro, de autocarro em autocarro, nas escadas dos prédios, escondem-se nos grandes kispos como se, no momento em que os fecham, conseguissem encerrar a tristeza que persiste em alojar-se lá por dentro, no coração. As pessoas não querem saber.

As pessoas falam alto, gritam por vezes… Outras sussurram. Muitas dizem mal, muitas dizem muitas coisas muito erradas. Umas quantas falam de coisas que não sabem o que são. Nenhumas falam em amor, pouquíssimas tocam no tema da morte… Algumas, têm a sorte de poder trazer nos bolsos do casaco da vida histórias bonitas para contar, daquelas que provocam gargalhas sonoras que enrugam totalmente a cara da sua vítima fatal. Poucas pessoas se riem assim. Poucas pessoas se riem. Poucas pessoas dizem “sou feliz”.

As pessoas não se abraçam e quase já nem sorriem. Há pessoas que sorriem no tempo errado, outras com a intenção errada. Poucas sorriem seriamente, nenhumas o fazem com o olhar. As pessoas poupam a sua energia, como se as publicidades que vêm na televisão dissessem respeito à energia de cada uma delas. As pessoas não se sentam com uma chávena de chá a pensar sobre o que fizerem ou aquilo que querem muito fazer. Há pessoas que não lutam, só correm, apressadas na rua, para chegarem a tempo a um sítio que elas próprias não sabem o que é. As pessoas são estranhas. Poucas são justas. As pessoas cansam-se, de tanto correr talvez…

Já vi muitas pessoas dissolverem-se, como uma aspirina efervescente quando, quase num mergulho artístico coreografado ao milímetro, mergulha na água calma de um copo de vidro muito usado. As pessoas de que gosto não se dissolvem com a chuva, gosto quando elas se dissolvem em mim, no meu coração, nas minhas gargalhadas. As pessoas de que gosto apontam me uma arma à vida, que me obriga a dizer “sou feliz”, mesmo que tenha que correr apressado, que falar de coisas que não sei, que usar cachecóis e kispos que me tapam até à alma.

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